Seriam os brasileiros capazes de testar seus próprios conhecimentos em Teste de Software? Conseguiriam criar, planejar, executar e manter um processo de certificação de profissionais da área? Algumas pessoas acham que não. Ainda bem que muitas outras estão descobrindo que sim. Os brasileiros não só podem, como já o estão fazendo há quase dois anos.
Até 2006, quem desejava se certificar em Teste de Software precisava viajar até outro país. Custo alto, proibitivo para a maioria. Hoje parece até absurdo, mas foi assim por longo tempo.
Um grupo de especialistas em testes, que havia formado em 2002 a ALATS (Associação Latino Americana de Teste de Software), acreditou que um programa de certificação nacional era possível. O primeiro exame, piloto, foi testado com 10 profissionais que se propuseram a, uma vez aprovados, serem multiplicadores.
A multiplicação funcionou, passados outros 3 exames semestrais, já somos 142 profissionais certificados com a CBTS (Certificação Brasileira de Teste de Software). Tenho muito orgulho de ser um deles.
Conheci a certificação quando era gerente de treinamento da 7COMm, e pude ajudar a trazer o curso e o exame para São Paulo.
Fiz o treinamento com o Emerson Rios, o Ricardo Cristalli, a Fátima Mattos, e infelizmente perdi a aula com a Silvia Lopes. Estudei pelas apostilas, pela primeira edição do Base de Conhecimento de Teste de Software, com seus erros e defeitos. Fui aprovado e passei a ministrar o curso no Estado.
Nesse tempo, várias dúvidas surgiram e merecem o devido esclarecimento:
A CBTS é baseada em práticas e modelos internacionais?
Sim, há referências explicitas ao CMMI, ao TMM, ao IEEE, ao CBOK do QAI, ao PMBOK do PMI. São fontes de conhecimento valioso que não podem ser desperdiçadas. Assim como também não pode ser ignorada a experiência prática dos profissionais e autores nacionais, o senso, a discussão sobre o que funcionou em projetos tupiniquins, qual a dosagem de cada técnica na realidade brasileira.
Se ela se baseia em outras certificações, não é melhor eu me certificar direto nas outras?
É uma opção muito particular. O mais importante é que através da CBTS agora você pode fazer essa escolha. Antes você não podia. A minha opinião é que a CBTS deveria ser a primeira certificação que um analista de testes deveria almejar. Depois de certificado, se a empresa onde trabalha ou pretende atuar atende a clientes internacionais, seria muito válido conquistar uma certificação americana ou européia, conforme o caso. Eu mesmo prestei o exame da CSTE do QAI em dezembro e estou aguardando o resultado. Uma não excluí a outra. O que estudei para o CBTS me ajudou no CSTE com certeza.
O exame é formado por 100 questões teóricas, ele prova realmente que o profissional está pronto para atuar com Teste de Software?
As questões não são fáceis nem para profissionais com anos de experiência, basta notar o baixo índice de aprovação. As perguntas avaliam a formação básica do profissional, se ele sabe porque faz um determinado processo e qual a sua importância. Ou seja, que a pessoa não apenas executa os testes, seguindo um roteiro.
Alguém não apto pode se certificar?
É possível, assim como pode ocorrer em qualquer outra certificação. A ALATS vem procurando formular as perguntas de forma a dificultar que isso ocorra. Não me preocupo demasiadamente com isso. Ninguém é contratado apenas por ser certificado, o mercado exige experiência. Ser certificado é um diferencial, um fator de destaque e muitas vezes uma forma de desempate entre dois ótimos candidatos a uma vaga.
A aprovação no exame me garante um emprego e remuneração melhores?
Ainda não existem números oficiais, porém tenho acompanhado alguns ex-alunos que após a certificação conseguiram cargos de coordenação ou gerencia de Áreas de Teste. Outros foram oficializados como Analistas de Testes. Quem trabalhava em empresas que não valorizam o profissional CBTS, em meses, já mudou paa outras empresas mais atentas ao mercado. Se você acompanhar os anúncios de emprego, irá notar que a CBTS é cada vez mais exigida.
Algumas pessoas reclamam da prova, de perguntas ambíguas ou mal formuladas. Isso acontece?
Para um testador é bem simples entender que nada que o ser humano produz está 100% livre de defeitos. Se uma questão é considerada falha, ela é anulada. O importante que o processo de criação e avaliação das perguntas do exame está em constante evolução. Porém, nenhum exame de certificação está inteiramente livre desse risco. Tenho certeza que a prova será melhor a cada execução.
O número de profissionais ainda é pequeno, devo esperar ter mais gente antes de me certificar?
O número de profissionais vem crescendo a cada ano. De 10 à 142 em apenas 3 exames, é um crescimento exponencial! Sem muita propaganda e lutando contra várias dificuldades. Esses profissionais já contam com a preferência para contratação em diversas empresas. Existem muitas oportunidades para quem se certifica nesse momento da curva de crescimento da certificação, seja na forma de colocação, abertura de negócios, desenvolvimento de produtos e serviços de teste, e mesmo atuação como consultor e instrutor.
Prevejo o número de 1.000 profissionais certificados CBTS como um ponto decisivo na curva de crescimento da própria certificação. Depois desse ponto, a curva irá crescer ainda mais acelerada, as oportunidades serão ainda maiores, principalmente para os que se certificaram antecipadamente. Não é uma questão de futurologia, é apenas enxergar como funcionou com as outras certificações.
A CBTS é a única certificação em português?
Não mais, a CBTS foi a primeira, mas o QAI Brasil e o BSTQB já aplicam os seus exames em português, respectivamente a CSTE e a CTFL. Isso demonstra a aposta que essas tradicionais entidades internacionais depositam no crescimento que a área de Teste de Software terá no país.
Qual o investimento necessário para a certificação?
O primeiro investimento que você precisar ter em mente é quanto tempo irá dedicar aos estudos. A prova não é fácil. Não adianta achar que porque trabalha o dia inteiro com testes basta só dar uma olhada no material e ir fazer o exame. Você precisa ler o livro Base de Conhecimento de Teste de Software, que foi revisado e está na sua 2ª edição pela Editora Martins Fontes, pelo menos três vezes. Três vezes? Sim. Na primeira vez você conhece, na segunda vez você consegue ter uma visão mais critica, e a partir da terceira leitura você passa a conseguir uma perspectiva mais ampla e profunda dos temas apresentados.
O preço do livro varia conforme a livraria, mas é possível encontrá-lo por menos de R$ 50,00
O valor do exame para este ano ainda não foi divulgado, mas desde o início custou R$ 300,00. É bem mais barato que outros exames. O valor é uma das poucas fontes de renda da ALATS, que é uma organização sem fins lucrativos e não chega a cobrir as despesas com aluguel de sala em algumas localidades que o exame é executado. Ou seja, locais com mais inscritos, como São Paulo e Brasília, acabam subsidiando os custos de outras cidades, o que entendo como correto para garantir um valor de prova único em todo o país.
Quanto custa um curso preparatório para o exame? É importante fazê-lo? Os valores variam entre os estados brasileiros, algo entre R$ 800,00 à R$ 1.200,00, este último é o valor em São Paulo. A carga horária oscila entre 32 e 40 horas de aula.
Se você pode fazer um esforço e dispor desse valor, é um investimento válido, pois além de acelerar o aprendizado, várias conexões entre temas do livro base são feitas com outros livros e com situações reais, simplificando o entendimento. Outros materiais são estudados, ampliando o conhecimento necessário a aprovação. Os centros de treinamento também estão investindo mais este ano na criação de simulados para auxiliar na preparação dos alunos. Os índices de aprovação dos candidatos que participaram dos treinamentos é naturalmente maior do que entre aqueles que apenas leram o livro. Faça o curso em um Centro de Treinamento Oficial credenciado pela ALATS. Não arrisque o seu investimento, dê preferência a entidades que a própria associação reconhece e valida a capacidade de preparar candidatos para o exame.
Porém, cada um sabe onde o seu bolso aperta, digamos então que conforme sua disponibilidade financeira, o investimento total varia de R$ 350,00, inscrição e livro, à R$ 1.500,00, inscrição, livro e curso.
Reserve tempo e dinheiro, invista em você, nessa carreira que só vai crescer a cada ano. Afinal, é uma área que apenas começou a demonstrar a sua importância para as empresas. Teste de Software veio para ficar.
E o futuro?
Além das opiniões que já expressei sobre como vejo o crescimento exponencial da importância da área de Teste de Software e do número de profissionais CBTS, eu arrisco em imaginar que a certificação mudará de nome e será um dia a CLATS (Certificação Latino Americana de Teste de Software), afinal, a ALATS já está presente no Uruguai, através do Marcelo de Los Santos, e o Emerson Rios, presidente da ALATS, vem trabalhando ativamente para expandir a presença da associação em nossos hermanos.
Também imagino que a CBTS se desdobre em outras certificações, cobrindo a atuação dos testadores aos gerentes de projeto e de áreas de teste, a exemplo do que também ocorre com as demais certificações internacionais.
Dessa forma, então o que vejo é o Brasil exportando o seu programa de certificação em Teste de Software, e importando outros, por que não?
Mas, sim, os brasileiros podem tudo em que forem capazes de perseverar.
Acredite. Estude. Certifique-se. Aplique o conhecimento no seu trabalho. Critique. Melhore. Divulgue. Coloque-se em ação, o mundo é limitado pela nossa capacidade de sonhar e concretizar nossos sonhos.
Sonhe CBTS, estude noites em claro, acorde um dia certificado.